João Rodrigues [1560(?) – 1633]

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Padre João Rodrigues – nasceu em Sernancelhe, em 1560 ou 1561. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direção à Índia. Em 1577 chegou ao Japão como membro da Companhia de Jesus. Em 1580 inicia o seu noviciado em Usuki e no ano seguinte inicia-se no estudo de Humanidades, Filosofia e Teologia em Funai (Oita). Em Nagasaki, ao serviço da Companhia, dedicou-se ao ensino da gramática e do latim, vindo a concluir os estudos em Teologia. Foi a Macau para ser ordenado sacerdote e, de regresso ao Japão, tornou-se intérprete de Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi, recebendo assim o epíteto de “Tçuzu” (o Intérprete) — como aliás é conhecido entre os historiadores e conhecedores da sua obra.  Tornou-se um hábil diplomata e político. Em 1619, após o Édito de Expulsão dos religiosos por parte das autoridades japonesas, partiu para Macau, onde iniciou  uma série de investigações com o propósito de conhecer as origens das comunidades cristãs ali estabelecidas desde o século XIII. Apontado como um vulto da cultura universal, faleceu em Macau em 1633.

Para além de intérprete, foi um dos autores e coordenador do Vocabulário da Lingoa de Japan, editado em 1603, primeiro dicionário de japonês-português; da Arte da Língua de Japam (1608); Arte Breve da Língua de Japam (1620) e autor de A História da Igreja de Japam.

Foto: Sernancelhe, vila da região norte onde nasceu João Rodrigues

 

ARTE BREVE

Arte Breve

A gramática japonesa intitulada Arte Breve da Lingoa Iapoa, publicada pelo padre João Rodrigues – Tçuzu – no ano de 1620, em Macau, é composta de três livros, o último dos quais versa sobre nomes japoneses e modos de tratar algumas pessoas, especialmente pessoas de prestígio e com um estatuto social elevado. O conteúdo deste livro é inteiramente percetível, embora possa parecer estranho para quem tem a ideia que a Arte Breve é uma mera “gramática”. Desde tempos remotos que os japoneses consideram uma extrema descortesia tratar abertamente as outras pessoas pelo seu “Iitmio” ou“Nanori”, isto é, pelo seu nome verdadeiro. A situação é tanto mais grave se o“ Iitmio” ou “Nanori” é utilizado para chamar pessoas de elevada importância e prestígio. Este costume, de evitar utilizar “Iitmio” ou “Nanori”, encontra-se profundamente enraizado e tem por base um pensamento de natureza fetichista. Esta crença afirma que o nome verdadeiro, quando descoberto, leva a que o espírito (“Tama”) com um poder misterioso escondido em qualquer nome, comece a exercer uma influência nefasta sobre a pessoa nomeada.

Rodrigues, para além de ser um missionário e um intérprete (Tçuzu), desempenhou o importante cargo de Procurador da Missão, cuja função principal é conciliar os interesses de importantes figuras da sociedade japonesa e de mercadores portugueses em Nagasaki, no contexto do trato luso – japonês. Rodrigues, baseando-se na compreensão do referido modo de pensar, consegue perceber perfeitamente a obrigatoriedade de chamar as outras pessoas pelos seus nomes substitutos, como modo incontornável de estabelecer uma relação amistosa com elementos importantes da sociedade nipónica. Mesmo que Rodrigues não dê realce na sua obra, de uma forma clara, à tal obrigatoriedade de tratamento, o fato de ter tido uma absoluta consciência do dever de respeitar a obrigação de “tratar outrem de maneira correta e cortesã” é, segundo creio, evidenciado pela extensa lista por ele elaborada de vários nomes de dignidade, tais como “Iurio”, “Fiacquan”, “Curai”, etc.

Texto retirado de Hino Hiroshi – Respectful avoidance of “Iitmio” ou “Nanori” and father João Rodrigues Tçuzu’s Arte Breve. Pp. 9-45.

Bulletin of Portuguese-JapaneseStudies, ed. João Paulo Oliveira e Costa, vol. 6, Jun. 2003.