Luís Fróis (1532 – 1597)

Luís Fróis

Luís Fróis, «ele escreveu a História do encontro entre Portugal e o Japão»

Nasceu em Lisboa, em 1532, no seio de uma família ligada à corte do Rei D. João III. Aos 16 anos, e depois de concluir os seus estudos na área de Humanidades, efetua uma breve passagem pela corte , em 1548, para depois ingressar na Companhia de Jesus. Após dois meses de noviciado, embarca em Lisboa a 17 de março do mesmo ano, numa viagem para a Índia, sem nunca mais voltar ao seu país natal.

Chega à cidade de Goa a 9 de outubro de 1548. Entre 1548 a 1561, inicia os seus estudos no Colégio de São Paulo. Já nessa altura se distingue pela forma como descreve pormenorizadamente as atividades dos missionários em Goa e Malaca. Foi ordenado padre em 1561. É também em Goa que viria a ter diversos encontros com Francisco Xavier — o último dos quais em 1554—, que iriam marcar profundamente toda a sua vida. Parte para Macau  em 1562 e dali inicia a sua viagem para o Japão como missionário da Companhia de Jesus.

Chega a Yokoseura, localizada na atual Província de Nagasaki, a 6 de Junho de 1563, no período de apogeu da missão jesuíta no Japão e um mês após o batismo do primeiro dáimio japonês, (Bartolomeu) Omura Sumitada. Ali começa a escrever uma longa série de cartas e variadíssimas relações e tratados, nos quais descreve em detalhe as atividades dos padres e da Missão.

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O valor histórico destas cartas é inestimável e são os documentos que encerram mais detalhes sobre a vida quotidiana dos missionários no Japão. A análise de alguns desses textos permitirá reconstituir as principais atitudes que o jesuíta tomou face à cultura japonesa, clarificando, de passagem, aspetos do diálogo civilizacional que portugueses e asiáticos travaram na segunda metade do séc. XVI. Luís Fróis assistiu à destruição de Yokoseura, e refugiou-se mais tarde na ilha de Takushima, no pequeno arquipélago de Hirado, onde inicia os seus estudos de língua japonesa, que lhe permitiram mais tarde estabelecer contactos importantes junto de personalidades influentes, nomeadamente em Kyoto, (à época, a nova capital do Japão), onde desembarca em 1565.

Após a sua chegada a Kyoto, conheceu o shogun Ashikaga Yoshiteru, e privou mais tarde com Oda Nobunaga, (o shogun que iniciou o processo de centralização e unificação do poder no Japão e pôs fim a um longo período de guerra civil) tendo inclusivamente em 1569 permanecido por um breve período de tempo na residência privada de Nobunaga, em Gifu, enquanto escrevia os seus livros.

Em 1577, passa pelo reino de Bungo, (atual província de Oita). Durante esse período, o dáimio  local, Otomosorin, converteu-se e é batizado com o nome Francisco de Bungo. Mais tarde, em 1581, Fróis é novamente chamado a Nagasaki, como secretário do Vice-Provincial, o Padre Gaspar Coelho.

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Nessa altura, e a pedido de Alexandre Valignano, iniciou a sua Historia de Japam, que ainda hoje é uma importante fonte para os estudiosos da História do Japão e da missão jesuíta entre 1549 e 1593.

Luís Fróis acompanha o Padre Gaspar Coelho como intérprete na importante visita efetuada ao novo líder do Japão (1586), o shogun Toyotomi Hideyoshi, que precede a emissão do decreto de expulsão de todos os missionários no Japão, editado no ano de 1587. Hideyoshi considerava a missão evangelizadora do missionários jesuítas um entrave à reunificação política do país.

Após a expulsão dos religiosos por parte das autoridades japonesas, Luís Froís continua a desenvolver o seu trabalho como missionário na clandestinidade e consagra a maior parte do seu tempo à redação do manuscrito da sua História do Japão.

Em 1592, e a pedido do Padre Alexandre Valignano, viaja como seu secretário para Macau, onde termina o relato da organização da viagem de uma embaixada japonesa a Roma: iniciada em 1582 e composta por 4 jovens samurais, que chegam a Lisboa em 1584, e depois partem para Roma, onde são recebidos por Gregório XIII. Esta embaixada deixou a Europa em Abril de 1586 e chegou ao porto de Nagasaki, em 1590. Nessa altura dá por concluída a sua História do Japão, episódio documentado numa carta enviada ao Padre Acquaviva. Mas o seu estilo de escrita não agrada a Valignano, o qual critica severamente muitos dos aspetos de uma obra que é considerada atualmente como referência indispensável a todos os que estudam a História do Japão.

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Todo o trabalho que desenvolveu teve como base a sua experiência pessoal. É um testemunho direto e, de certa forma, autobiográfico desse momento histórico do Japão e da presença missionária da Companhia de Jesus.

O seu estado de saúde fragiliza-se. Luís Fróis receia que o seu manuscrito se perca em Macau e, para que a sua História do Japão fosse salva, decide fazer o sacrifício e volta doente e exausto a Nagasaki, no ano de 1595. Na última fase da sua vida deixa-nos os escritos daquela que é talvez a sua melhor obra, O Relato da Morte dos 26 Mártires de Nagasaki, de 15 de março de 1597. O texto foi enviado passando pelas Filipinas, escapando assim à censura do padre Valignano, mas assim que este tomou conhecimento da ação, solicitou a Roma o arquivo do referido documento, que apenas será publicado em 1935.

Já na última etapa da sua vida, e com 62 anos, Fróis escreve talvez uma das suas melhores obras: a Relação da morte dos 26 Mártires de Nagasaki (a 15 de março de 1597), onde mais uma vez demonstra o seu profundo conhecimento da cultura japonesa. Este texto serviu para esclarecer certos aspetos discutidos entre os historiadores japoneses em torno da identificação do local exato do martírio, e foi só no ano de 1956 que o local, a colina de Nishizaka, foi declarado histórico na cidade de Nagasaki e erigido um monumento representando os 26 mártires na ordem que Froís descreveu.

Terminada a obra, o estado de saúde de Luís Fróis agravara-se. Morre no Colégio de São Paulo em Nagasaki, a 8 de julho de 1597. Em 1997, celebrou-se em Portugal e no Japão o 400º aniversário da morte de Luís Fróis, com várias atividades comemorativas, entre as quais se destacam a cunhagem de moedas e a publicação de selos.

Luís Frois foi figura primordial na primeira evangelização do Japão e um nome inegavelmente ligado à vida cultural e religiosa de Nagasaki. Pode ler-se gravado no monumento a ele erigido no Parque dos Mártires uma frase que resume a sua vida: «Ele escreveu a História do encontro entre Portugal e o Japão».